
opyright
pensamento, crtica e criao
65
15 Out. 1998
http://www.udc.es/dep/lx/cac/sopirrait
Corunha
Galiza




Foucault e a existncia do discurso
(c) Edmundo Cordeiro
edcord@alpha2.ubi.pt
e Cadernos do Noroeste, Universidade do Minho
     1. Qualquer coisa  dita. E talvez antes de procurarmos dizer o que  que isso, isso que foi dito, quer dizer, ou como, como  que isso foi dito, ou ainda,
o que  que foi feito ao dizer isso, quando se disse isso, e na medida em que foi isso, isso, e no outra coisa, que se disse, antes de procurarmos descrever o sentido,
o modo e a aco do que foi dito, talvez, antes de tudo disso, seja necessrio responder a esta questo: por que  que foi dito isso, isso exactamente, isso, e no
outra coisa, que teria sido, at, possvel dizer? Responder  questo: o que  que tornou possvel dizer isso?
     Evidentemente que a resposta a esta ltima questo no anula todas as outras questes anteriores e, claro, todas as respostas a essas questes. Parece  que
todas as questes que se dirigem ao discurso perguntando-lhe sobre o seu sentido, o seu modo e a sua aco tendem normalmente a esquecer esta ltima questo, como
se a possibilidade de falar fosse uma evidncia, e como se no acontecesse nada no discurso seno uma ausncia, originria ou de superfcie, ausncia que o trabalho
analtico teria de descobrir e colmatar. "No se pode falar em qualquer poca de qualquer coisa; no  fcil dizer qualquer coisa que seja nova" escreve Foucault 
em L'Archologie du Savoir, Gallimard, Paris, 1969, p. 61. E, da mesma maneira, no se pode vir dizer, vir dizer depois, aquilo que no se disse numa dada poca, 
aquilo que ela poderia ter dito. No  isso que se diz quando se responde  questo sobre o que  que tornou possvel dizer isso. Isso foi dito, est dito: aconteceu. 
     2. Qualquer coisa  dita. O que constitui um acontecimento, um acontecimento discursivo, um acontecimento to venervel quanto uma tempestade. Um acontecimento 
discursivo: qualquer coisa que se solta do "murmrio annimo" - as primeiras pginas de A Ordem do Discurso referem-se a esse murmrio. Dar conta desse acontecimento, 
descrev-lo - descrio que constitui um polimento, uma talha, uma inveno, do seu "soco", da sua "base", diz Deleuze em Foucault, Minuit, Paris, p. 25 -, eis a 
tarefa da anlise do discurso. 
     Porque, justamente, quer-se dar conta da relao da linguagem com "outra coisa" - L'Archologie, p.117 -, de "uma prtica" em que a linguagem se relaciona com 
"outra coisa". E aquilo que em Foucault mais est em causa na noo de discurso  que este  uma prtica - prtica de muitas coisas, prtica social tambm (Vj. o 
modo como Moiss Martins mostra as consequncias disto mesmo em O Olho de Deus no Discurso Salazarista, Afrontamento, Porto, 1990, nomeadamente pp. 11-34). O discurso 
como prtica  essa instncia da linguagem em que a lngua est relacionada com "outra coisa", a qual no  lingustica. Donde, a relao da lngua com "outra coisa" 
que no  de natureza lingustica, relao que se d no uso da linguagem, essa relao  o discurso. O discurso  uma prtica que relaciona a lngua com "outra coisa", 
 aquilo a que Foucault chama "prtica discursiva": "No a podemos confundir com a operao expressiva pela qual um indivduo formula uma ideia, um desejo, uma imagem; 
nem com a actividade racional que pode ser accionada num sistema de inferncia; nem com a "competncia" de um sujeito falante quando constri frases gramaticais; 
 um conjunto de regras annimas, histricas, sempre determinadas no tempo e no espao, que definiram, numa dada poca, e para uma determinada rea social, econmica, 
geogrfica ou lingustica, as condies de exerccio da funo enunciativa." (L'Archologie, pp.147-148) 

   O acontecimento discursivo pressupe a anterioridade de um "h linguagem" - " il y a du langage" (L'Archologie, p.146) -, a anterioridade do "murmrio annimo". 
H o "murmrio annimo" e, de repente, d-se um acontecimento, qualquer coisa que  dita. Algum disse, mas quem? Ser que a linguagem comeou nesse "algum"? Impossvel: 
o murmrio  anterior. Ningum diz nada sem ter ouvido dizer - e sem estar neste ou naquele lugar, e sem ser, ele prprio, qualquer coisa diferente dele prprio, 
muitas coisas diferentes, um "estatuto", uma "posio", "vrios eus" at. Por conseguinte, o discurso  um relacionamento complexo e esse relacionamento define as 
prprias regras de exerccio ou de existncia da enunciao e dos enunciados. 
     3. A anlise enunciativa ou discursiva de Foucault no se vai exercer na forma de uma interpretao, de uma anlise do sentido: ela visa descrever aquilo que 
 efectivamente dito, mas do ponto de vista da sua existncia: visa descrever "modalidades de existncia", visa definir um conjunto de "condies de existncia". 
     E quais as questes que so colocadas ao que  dito, ao que est dito? Temos a resposta que Foucault d em L'Archologie, p. 143: a anlise do discurso " referente 
s performances verbais realizadas, visto que as analisa ao nvel da sua existncia: descrio das coisas ditas, na medida em que, precisamente, elas foram ditas. 
A anlise enunciativa mantm-se fora de qualquer interpretao: s coisas ditas ela no pergunta aquilo que escondem, o que nelas e apesar delas estava dito, o no-dito 
que recobrem, a abundncia de pensamentos, de imagens ou de fantasmas que as habitam; mas pelo contrrio, [pergunta] segundo que modo  que elas existem, o que  
que  isso de se terem manifestado, de terem deixado marcas e, talvez, de terem ficado ali, para uma eventual reutilizao; o que  que  isso de terem sido elas 
a aparecer - e no outras no seu lugar". E so justamente estas as perguntas que permanecem mesmo que possamos dizer disso, disso que foi dito, que quer dizer aquilo 
- na verdade, sabemos que "de uma maneira ou de outra, as coisas ditas dizem muito mais do que elas prprias" (L'Archologie, p. 144); e permanecem mesmo que possamos 
especificar muito bem como  que foi dito, e at as aces feitas ao dizer - sabemos tambm que "um mesmo conjunto de palavras pode dar lugar a vrios sentidos, 
e a vrias construes possveis" (Ibidem), e a vrias aces; mesmo assim, todos estes sentidos, todas estas possibilidades de dizer e de fazer que atravessam as 
coisas ditas, tudo isto supe, j, precisamente, a existncia das coisas ditas - um "dado enunciativo" (L'Archologie, p. 146), diz Foucault, o qual permanece inalterado, 
e que  a base tanto do que  dito quanto dos seus sentidos, dos seus modos de enunciao, das suas aces. 
     4. A palavra  dita e  trocada "no interior de complexos mecanismos de restrio" (A Ordem do Discurso). Eis a hiptese de partida desta obra: "suponho que 
em toda a sociedade a produo do discurso  simultaneamente controlada, seleccionada, organizada e redistribuda por um certo nmero de processos que tm por papel 
exorcizar-lhe os poderes e os perigos, refrear-lhe o acontecimento aleatrio, esquivar-lhe a pesada, temvel materialidade." (Ibidem) Ora, devem-se daqui retirar 
consequncias ao menos para um certo entendimento da comunicao enquanto interaco por intermdio de mensagens, visto que esta interaco no ser de maneira nenhuma 
uma pacificao, um mtuo entendimento e um exerccio livre das competncias dos sujeitos. Ela ser, em vez disso, uma luta pela palavra, uma luta com a palavra 
- e uma restrio da palavra. A palavra  alvo do exerccio de poderes que a controlam; os poderes no incidem apenas sobre os corpos, mas tambm sobre as palavras. 
E porque suceder isso? Ao que parece, pela suspeita de que h na actividade discursiva "poderes e perigos que imaginamos mal" (Ibidem) - e porque o discurso  tambm 
objecto do desejo, porque "o discurso no  simplesmente aquilo que traduz as lutas ou os sistemas de dominao, mas  aquilo pelo qual e com o qual se luta,  o 
prprio poder de que procuramos apoderar-nos." (Ibidem) E ainda segundo a hiptese de Foucault, o controlo discursivo, para alm de ser uma luta simultaneamente 
pelo poder e contra o poder da palavra, visa tambm "refrear-lhe o acontecimento aleatrio" (Ibidem) - diante de qualquer discurso proferido, de qualquer coisa dita, 
de qualquer coisa escrita, procura-se de imediato localiz-la, amarr-la, e isto por intermdio de mecanismos que ligam aquilo que  transitoriamente dito ou a qualquer 
coisa j dita, ou a um sentido no dito mas que esclarece, explica aquilo que  dito ( este o mecanismo do comentrio), ou a algum, ou a uma disciplina terica. 
     Por consequncia, a instncia do discurso -nos apresentada por Foucault, na Ordem do Discurso, enquanto resultado de diversos sistemas de controlo da palavra, 
resultado das mais diversas prticas restritivas da palavra: sejam aquelas que limitam o que pode ser dito, o que pode ser dito de verdadeiro, o que pode ser dito 
de razovel, operando uma espcie de bloqueio no "murmrio annimo", sejam aqueles mecanismos que prendem tudo aquilo que aparece na ordem do discurso a um mesmo 
- texto primeiro, autor, disciplinas -, sejam aqueles que, pela instituio de uma cena a repetir, pela constituio de "sociedades de discurso", pelo funcionamento 
doutrinal do discurso, pelas apropriaes sociais, limitam os sujeitos falantes. So os trs sistemas de excluso do discurso: externos ao discurso - o interdito, 
a partilha da razo e da loucura e a vontade de verdade; internos ao discurso - o comentrio, o autor, as disciplinas tericas; excluso dos sujeitos falantes - 
rituais da palavra, sociedades de discurso, doutrinas e apropriaes sociais. Quer dizer: aquilo que  efectivamente dito no provm de um tesouro infinito de significaes, 
mas de condies de possibilidade especficas. 
     Por tudo isto, a anlise do discurso procurar, em suma, encontrar as regras annimas que definem as condies de existncia dos acontecimentos discursivos: 
as regularidades dessa disperso de acontecimentos (tema do cap. II de L'Archologie). Porque a questo no est em saber - e aqui aparece um dos temas de L'Histoire 
de la Folie  l'ge Classique, Gallimard, 1961 - se, por exemplo, a semelhana que  estabelecida pelo discurso da psicopatologia do sculo XIX entre condutas criminosas 
e comportamento patolgico  ou no justa. Mas est antes em saber por que  que se tornou possvel operar desse modo, ou "como  que a criminalidade pode tornar-se 
objecto de peritagem mdica, ou o desvio sexual esboar-se como um objecto possvel do discurso psiquitrico." (L'Archologie, p. 59 e 65) 
     5. Finalmente, se o discurso  uma prtica social, a prtica do discurso no poder ser entendida separadamente das prticas que no so discursivas - mas a 
relao do discurso com o que no  discurso  algo que se d discursivamente, por conseguinte,  algo que se apresenta no discurso. E neste sentido, h neste texto 
a apresentao de propostas de trabalho, definio de mtodos, definio de conceitos. Mas ele contm, igualmente, no final - naquilo que , no entanto, um lugar 
comum dos discursos de apresentao - das mais belas e comoventes palavras em louvor de um professor e do seu trabalho de filsofo, fazendo Foucault coincidir esse 
trabalho com o trabalho do pensamento da poca no seu confronto com Hegel - tratava-se daquele que Foucault a substituir no Colgio de Frana, Jean Hyppolite.
 

opyright agradece a Edmundo Cordeiro o permitir-nos a reproduo
do seu texto, e recomenda visitar a sua interessante pgina na rede 


opyright 64: A proposta de regionalizao: Um empurro para trs?, Rui Bebiano
opyright 66: O Corpo, a Lngua e o Estado Nacional, Celso Alvarez Cccamo
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